cartografias heterotópicas

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Cartografias heterotópicas ou processos para a construção de novos diagramas. Bettina Vaz Guimarães
Andrés Hernández

A articulação de operações, a mescla de territórios – espaciais, pictóricos, sensoriais – e a ausência de fronteiras caracterizam as obras de Bettina Vaz Guimarães na exposição da Galeria Sancovsky.

Como resultado dessas articulações, surgem paisagens inéditas, construções fragmentadas e integradas que geram formas, enquadramentos e dimensões, novas percepções que disparam outros pontos de vista, orientação espacial e escalas, levando os planos pictóricos a se transformar em forças de ruptura – desvio da frontalidade perante as obras. O que Frank Stella (1936) chamou de working space: um espaço pictórico que gera uma vontade de entrar e caminhar pela obra, entrar por um lado e sair pelo outro, um espaço em que se poderia viver. Espaços de extensão ilimitada.

O processo de produção de Bettina começa com a execução dos desenhos, que geram inventários de objetos que se desdobram em uma catalogação pictórica e geométrica de recortes e fragmentos a serem expandidos e projetados em pré-colagens experimentais, e isolados de imagens com máscaras que levarão à inserção, ou não, das mesmas no suporte da obra. Entretanto, o resultado é uma colagem autoral de sobreposições cromáticas e geométricas de tintas, ao justapor estruturas semânticas distribuídas a partir de operações de colagens particulares nas quais a distribuição das partes segue procedimentos únicos, homogeneamente articulados. Assim, intensifica a hierarquia dos materiais e do exercício do fazer, resultando em métodos de nomenclatura cromáticos e cartográficos únicos.

Esse tipo de operação com os suportes é recorrente na produção da artista, como em Quartos imaginários, 2015; Ambientes imaginários, 2016; Referências imaginárias, 2015; As casas que me levam, 2015; Interior, 2015; O íntimo, 2015; e Recanto, 2015, nos quais prepara, homogeneamente, a superfície do papel, ao aplicar uma forma-fundo monocromática, uma gestualidade voluntária que orienta e dá controle às forças cromáticas que irão se sobrepor. Um recurso que servirá de fronteira para estabelecer e ressaltar limites, ou mesmo como ponto de continuidade da execução das obras.

  As casas que me levam, 2015 / O íntimo, 2015

As casas que me levam, 2015 / O íntimo, 2015

Esses limites cromáticos, ou sua variação, verificam-se no deslocamento de manchas escuras em séries anteriores, como na série Travessia, 2014, na qual aparece um movimento sequencial, sem direção, entre manchas e estruturas geométricas de diversas intensidades cromáticas, até essas configurações geométrico-cromáticas ocuparem por inteiro o suporte.

Aparentemente, há uma preocupação da artista com a tensão entre a superfície e a ilusão (ilusionismo perspectivo), entre os fatos físicos do meio (a tela, por exemplo) e seu conteúdo figurativo e/ou abstrato; isso faz com que percebamos a “planaridade” das obras, antes mesmo de perceber o que elas contêm; mesmo quando a artista insere camadas pictóricas que emprestam um caráter tridimensional a algumas peças, vemos a obra, antes de mais nada, como pintura.

Com a inclusão, na exposição, das obras Quartos imaginários, 2015, e Ambientes imaginários, 2016, propõe-se, também, estabelecer uma ponte geradora de um movimento que sugere a reformulação e/ou assimilação de cada componente estrutural e material das mesmas, em qualquer deslocamento do espectador no espaço da galeria.

  Quartos imaginários, 2015 / Ambientes imaginários, 2016

Quartos imaginários, 2015 / Ambientes imaginários, 2016

Já as obras Bingo, 2014; Bullying, 2014; e Primeiro passeio, 2014, contam histórias reais e/ou inventadas – entrelaçando vivências com ficção, sobretudo –, e vinculadas ao universo infantil. Irrompem repletas de possíveis referências que, num primeiro contato, podem parecer díspares, ao surgirem rearranjadas em outras relações, mas que vão se saturando e nos impregnando, ao produzirem novos sentidos, atingindo sensações e outros abismos, numa leitura sempre fluida, porém, inesperada.

As obras de Bettina Vaz Guimarães evocam um movimento ininterrupto, que desafia a bidimensionalidade e realça a função da luz e do espectador; assim como invocam ações sugeridas e inacabadas, onde a familiaridade é fragmentada singularmente para uma assimilação pragmática de uma realidade aparentemente insólita e irreconhecível. Os diagramas, resultantes da junção de talento, suportes e ação, expandem as peles plurais do território estético, concentrando-o em obras de arte conjugadas plasticamente de técnicas e processos inovadores. Estabelecem-se, assim, relações difusas entre os planos das obras; são planos intrusivos, com uma forte intensidade cromática, nos quais elementos geométricos (linhas e formas) estruturam a figuração e/ou abstração.

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Em Coletânea de elementos, 2016, as imagens são projetadas numa flutuação que, no conjunto, constitui frames de um filme de uma dança corpórea e sequencial, espacialmente repetitiva, que transita por todas as peças e se estrutura como uma peça única.

O conjunto de obras de Coletânea de elementos está articulado nos detalhes, na perfeição e magistralidade que urde o Tudo; está na eloquência de cada um dos detalhes que faz que o conjunto se sobressaia e que reforça o valor pictórico do Tudo. Assim, a artista configura mapas inacabados nos quais as próprias formas particularizam a linguagem plástica, transformando-a em uma série de grafismos animados. Com isso, Bettina exprime o mistério da forma, que tanto mais se enfatiza e impregna de significados quanto mais as formas geométricas se desincorporam de sua identificação primária.

São obras que conjuram à sedução sensorial, através de uma ideia onde se mesclam estética e conceito, indissoluvelmente, onde se ratifica que estética é “uma configuração específica” do domínio da arte que precisamos aprender a ler, neste caso, um manifesto em traços de curiosidade e continuidade infinitas.

Ao incorporar à composição de cada uma das obras um repertório com uma marcada originalidade de operações e elementos conceituais, plásticos e visuais, revelam-se a fascinação e a reação da artista por uma construção estética com uma crescente qualidade artística. Irrompe, assim, uma singular relação estrutural na composição e na representação carregada de simbolismos, mistérios, ao mesmo tempo em que se propõe um enlace de intimidade e reciprocidade nas relações entre imagens. Define, assim, “um modo de pensamento que se desenvolve sobre as coisas da arte e que procura dizer em que elas consistem enquanto coisas do pensamento”.

Andrés Hernández
Curador, professor e produtor
São Paulo, outono de 2016

 

 

Heterotrophic cartography or processes for the construction of new diagrams. Bettina Vaz Guimarães
Andrés Hernández

Articulating operations, meshing territories – spatial, picturesque, sensorial – and the absence of frontiers help characterize the works of Bettina Vaz Guimaraes at her exhibition in Galeria Sancovsky.

As a result of these articulations, some unprecedented landscapes, fragmented yet integrated constructions are born with its forms, frames and dimensions, new perceptions that fire other points of view, spatial orientations and scales, taking picturesque planes and transforming them into forces of rupture – deviating from the frankness within the pieces. What Frank Stella (1936) called working space here exemplified; a picturesque space inviting the viewer to go inside and wander within the painting, to go in from one end and come out the other, a space which could shelter a life. Unlimited with spatial extension.

Bettina’s production process starts with the execution of drawings generating object inventories which unfold into pictorial and geometrical categorization of potential cuts and fragments to be expanded on in projects or pre-collage experiments. These, isolated from the works, almost as masks, participate in the process whether or not they’re insertion into the piece is undergone. In this way, each mask plays a role in supporting the creative process, even if it is not actively portrayed in the piece. The result in a unique construct or painting collage replete with chromatic and geometric superposition. Each time a new layer in added with this painting collage method, new semantical structures become juxtaposed. In such the distribution of parts in Bettina’s work follow a very unique procedure, and yet are homogenously articulated. In this way, the hierarchy of the materials used and implemented in this procedure intensify the hierarchy of the materials in that particular exercise, resulting in methods of chromatic nomenclature and a most unique cartography.

This type of operation is recurrent in various of the artist’s productions, such as: Imaginary Rooms, 2015; Imaginary Ambiences, 2016; Imaginary References, 2015; The houses that take me, 2015; Interiors, 2015, The Intimate, 2015, and Nook, 2015, all of which prepare the paper surface homogeneously, by applying a monochrome backdrop as a voluntary gesture guiding and orienting the chromatic forces to be superimposed. This resource helps establish a sort of frontier to establish and highlight limits, or even as a source of continuity throughout the execution of the work.

  The houses that take me, 2015 / The intimate, 2015

The houses that take me, 2015 / The intimate, 2015

These chromatic limits, or their variations, are verified in the displacement of dark spots or patches from previous series, such as Crossings, 2014, in which there appears to be some sequential movement, lacking direction, between spots and geometric structures of varying chromatic intensity, until these geo-chromo-configurations occupy or support the piece entirely.

The artist is apparently preoccupied with the tension between the superficial and the illusion (perspective illusionism), particularly between the physicality of medium (the canvas, for example) and its figurative and/or abstract content; this forces the viewers to realize the “flatness” of the works before they realize what each contains. Such that even though the artist implements pictorial layers which may lend some tridimensional qualities, the pieces are seen, before anything else, as paintings.  

By including the pieces: Imaginary Rooms, 2015, and Imaginary Ambiences, 2016, in the exhibition also establishes a sort of bridge capable of generating movement and suggesting a redesign and/or assimilation of each structural and material component of the same in any displacement of the spectator within the gallery space.

  Imaginary room, 2015 / Imaginary Ambiances, 2016

Imaginary room, 2015 / Imaginary Ambiances, 2016

On the other hand, the works: Bingo, 2014; Bullying, 2014; and First Outing, 2014, recount stories – real or invented – intertwining experiences/fictions of characters seemingly linked with the children storytelling universe. Erupt with possible references, which at first contact may seem incongruent, due to rearranged relationships between the elements, these works are saturated and impregnated with meaning, reaching new sensations in an ever fluid, however unexpected, interpretation.

The works of Bettina Vaz Guimarães evoke an uninterrupted movement, challenging its two-dimensionality and enhancing the role of light and viewer. Moreover, the pieces call upon suggested unfinished actions, where familiarity is uniquely fragmented to a pragmatic assimilation of a seemingly strange and unknowable reality. The diagrams are a result of the junction of talent, support and action, expanded into the aesthetic realm, focused and portrayed as multiple technical and procedurally innovative art pieces, paintings. In this way, diffuse relations between the pieces are established. These are intrusive pieces, with a strong chromatic intensity, in which geometrical elements (lines and forms) structure the figure and/or abstraction.

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In Element Collective, 2016, the images are projected as floating elements, which as a whole constitute frames of a corporal sequential dance or movie, spatially repetitive, and transient such that all the pieces are structured as a single choreographed piece.

The beauty of this collective is articulated in the details, in the perfection and magnanimity that permeates this whole; it is in the eloquence of each of the details which together makes the piece as a collective protrude thereby reinforcing the picturesque value of the whole. In this way, the artist configures unfinished maps in which each of the structures makeup part of a plastic artistic language, transforming them into a series of animated graphs and impregnating them with meaning beyond their geometrical forms and identifications. In this way, her images transcend their usual meaning, becoming much more than what they usually portray.

These are pieces that conjure a sort of sensorial seduction by ideals that mesh the aesthetic and the conceptual. It confirms aesthetics as a “specific configuration” in the domain of art which we as spectators much learn to interpret or read. In this case what we see is a manifesto with traces curiosity and infinite continuity.

Each composition incorporates a repertoire of marked originality of operational and elemental concepts, plastic and visual, revealing a fascination of the artist with aesthetic construction of growing artistic quality. What is observed is a unique structural composition and representation laden with symbolism, and mystery, while proposing an intimate bond and reciprocity between image elements. Thus defines “a way of thinking that develops on the things of art and seeks to say that they consist as things of thought” . 

Andrés Hernández
Curator, professor and producer
São Paulo, Fall of 2016.


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