casulo/ cocoon

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casulo

Bettina é uma artista afortunada. Conseguiu ao longo de sua trajetória um registro escrito bastante preciso de sua evolução na visão de pessoas absolutamente conectadas com a contemporaneidade e com a sua proposta. São eles que assinam os textos do livro que ela lança juntamente com a abertura da exposição. Eu me sinto privilegiado por poder continuar esse registro e escolho fazê-lo de forma menos analítica e mais emocional.

Bettina se lançou no desafio desta exposição com a intenção clara de experimentar. Sem medo de errar, nem de produzir (e como ela produz!).
Parece necessitar de várias salas, continuas e conectadas, para testar o resultado de sua compulsão pela pintura, de sua paixão pela cor. Não importa mais de onde vem a forma - cubos de construção infantis, estímulos externos, artistas que habitam seu jardim de referências - o que importa é que isso vai dar a ela novos motivos para fazer novas pinturas.

Claro que continuam ali as discussões sobre a fragmentação da vida cotidiana, a domesticidade de que falaram Reginaldo Pereira e Kátia Canton, mas dessa vez isso é adereço. Está presente o discurso do repertório pessoal que mencionou Ricardo Rezende, mas menos preocupado com a sua origem e com a identificação de seus códigos.
Mais do que nunca, eu vejo aqui a expansão do prazer pela pintura que apontou Fernando Velásquez.
A vontade é tanta, que a obra tem que sair, mesmo que seja quadrada. O cubo permite reforçar o caminho da pintura, permite mostrar que o assunto importa menos e que é possível se libertar deste companheiro de longa e intensa jornada em benefício de outras discussões, literalmente mais abstratas.
A cor domina, a complexidade aumenta a tal ponto que não resta alternativa a não ser puxar a pintura da parede – agora colorida - e colocá-la em objetos físicos, como se estivéssemos olhando para uma metalinguagem pictórica: vendo cubos, pintados em cubos, dentro de um espaço expositivo que tem também esse formato.

Esse elemento traz um procedimento novo. Quase o caminho inverso de Braque e Picasso. Parece que Bettina sempre pintou seus objetos como se tivesse olhos em todos os lados, e agora ela busca a planificação dos vários espaços construídos na superfície tridimensional de outro objeto. As camadas se achatam. A cor se evidencia.
A grandiloqüência da sua pintura não é só física, como tem sido seus desenhos e muitos trabalhos da sua produção, é algo que mostra um acúmulo interno de intenções, puramente estéticas, puramente sensíveis, quase evangelizadoras. Entre na cor, ela diz. Seja sugado pela explosão de tons, ande em volta de seus fragmentos. Sinta sua presença.

Não viemos aqui para ver a Bettina que escolhe meticulosamente a sua paleta a partir dos ambientes que está pesquisando, mostrando os inequívocos verdes que menciona Moacir dos Anjos, nem a artista que vai construindo seus desenhos com várias folhas de papel. Aqui está uma Bettina visceral, inebriada pela cor e cheia de coragem para se lançar em algo que não sabe ao certo onde vai dar, mas que certamente deixará marcas em sua trajetória.
Acho que o convite nesse momento é para que todos deixem seus filtros na porta, e que olhem o que está sendo apresentado como o novo, o ovo, mesmo que seja quadrado.

Luiz Telles / Maio 2013
 

 

Cocoon

Bettina is one lucky artist. Throughout her career she managed to gather a record of her progress written by people very connected with the contemporary art scene and with a precise vision of her motifs as a twenty first century painter. These are the authors of the texts that are published in the book she launched on the opening night of her most recent show. I feel privileged to be able to continue this record and choose do so in a less analytical and more emotional approach.

Bettina launched herself into this exhibition with a clear challenge: experimentation – with clear intentions to do so. Without fearing errors, she does not intimidate herself whilst producing (and how she works!).
She seems to need several rooms, continuous and connected, to test the result of her compulsion for painting, her passion for colour. It doesn’t matter where the inspiration comes from – whether it’s from children’s construction cubes, external stimuli or artists that inhabit her reference garth - what matters is that these will give her new ideas to make new paintings.

Of course there are still discussions about the fragmentation of everyday life, the domesticity that Reginaldo Pereira and Katia Canton spoke of, but this time these means are used as props. Signs of her personal repertoire that Ricardo Rezende mentioned remain, but her peroration is less concerned about their origin and the identification of their codes. More than ever, I see here the overflowing pleasure in painting that noted Fernando Velásquez.
Her volition is so vast that the work has to hatch – even if in the shape of a cube. The cube allows her to establish a modus operandi for her painting, allows the subject to matter less and makes it possible to break free from it in favour of other discussions, literally more abstract. The colour is dominative, the complexity increased to the point that there is no alternative but to pull the paint from it’s two-dimensional form, where it was held within the flatness of the canvas and transferred onto physical objects – where even the wall gained it’s own grey chrome scale, as if we were looking for a pictorial speech on pictorialism: seeing cubes, with cubes painted on them, within an exhibition space that also has this cubical intent.

This procedure incites a reverse action of cubism, almost like the opposite of Braque and Picasso. The impression we get is that Bettina always painted objects as if she could see all sides concomitantly, and now she seeks to flatten out the layers of the various constructed spaces on a three-dimensional surface of another object. Chromaticity continues a conspicuous aspect of her process.The grandiloquence of her paintings aren’t only physical, as her drawings and other works, it’s as if it shows a build-up of internal intentions, purely aesthetic and sensitive, almost evangelizing. “Embrace the colour”, she says, “be absorbed into the explosion of shades, walk around their fragments, feel the ubiquity”.

We did not come here to see the Bettina meticulously choose her palette from the environments she is researching, showing the unmistakable green Moacir dos Anjos mentions, nor the artist who builds her drawings with multiple sheets of paper. Here is a visceral Bettina, intoxicated by colour and full of courage to embark on something that she is not sure where it will lead her, but it will certainly leave marks on her course.
I think this time the invitation is for everyone to leave their strainers at home, and look at what is being stated as distinct, cyclical, even if it is square.

Luiz Telles/ May 2013


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