entre um branco e um preto

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entre um branco e um preto inequívocos, verdes, cinzas e azuis

Os desenhos de Bettina Vaz Guimarães parecem pertencer, em uma primeira visada, à tradição da natureza morta, em que as coisas do mundo são representadas em repouso e oferecidas a um escrutínio vagaroso do olhar, que as identifica e compara com o repertório de imagens afins que a memória guarda. Eles trazem embutidos, porém, mecanismos que afrouxam esse pertencimento suposto ou que o tornam menos apaziguado.

O primeiro deles provém no próprio movimento rápido do pincel sobre o suporte usado, que faz o papel absorver a tinta de modo desigual, formando densos campos de cor preta em algumas áreas e em outras apenas manchas e riscos ralos. Essa gestualidade apressada, impressa nas formas criadas, provoca, eventualmente, arrependimentos e a consequente vontade de voltar atrás. Não existe, contudo, apagamento possível das marcas e dos traços inscritos no suporte, afirmação de um tempo que flui em uma direção só. Correçoes são feitas apenas por meio da sobreposição de mais outras manchas e riscos ou de construçoes alternativas sobre a mesma superfície trabalhada. Impoe-se, assim, de uma maneira intrínseca à técnica usada, uma idéia de movimento que subverte a aparente imobilidade dos objetos desenhados, ainda que seu reconhecimento possível seja sempre respeitado.

O segundo mecanismo de afastamento de uma tradição assentada é a inexistência de um contexto que situe as coisas reproduzidas em tinta como partes de um cotidiano ordinário. Isoladas de todo avizinhamento a que seus referentes (um bule, um apontador de lápis, um mero frasco) estão sujeitos no mundo de onde são copiados, essas imagens não têm como assentar-se, tornando-se apenas conceitos de tais objetos. São a tinta escorrida e os respingos sobre o papel – também resultados da rapidez com que a mão da artista produz formas – que lhes devolve o peso que o branco vazio do suporte subtrai. Há, finalmente, o agigantamento das figuras em relação à sua escala usual, o qual corrói a noção de proximidade que as coisas desenhadas poderiam evocar em quem as observa de perto.

O ajuntamento de folhas de papel que permite tal expansão de formas é o que também as faz, porém, possuir um centro – o ponto onde as quatro folhas usadas se tocam –, para onde tudo o que está fora e distante virtualmente converge. Situadas entre a contigüidade e a distância do espaço habitado, as imagens criadas por Bettina Vaz Guimarães reclamam, assim, um lugar em uma tradição de representar o mundo que somente as pode acolher quando é por elas mesmo alargada. Evocam, por fim, no campo do simbólico e do sensível, o modo ambíguo com que o apreço, a qualquer coisa ou a qualquer um, se expressa na vida comum, em que mesmo entre um branco e um preto inequívocos cabem verdes, cinzas e azuis.
Moacir dos Anjos

 

In between clear black and whites, greens, grays and blues.

The drawings of Bettina Vaz Guimaraes seem to belong at first glance to the tradition of still lives, in which the objects of the world are represented in resting and offered, in slow scrutiny of the eye, that identifies and compares them to the repertoire of images kept by memory. However, they bring inbuilt mechanisms that loosen this supposed belonging or that make them less peaceful.

The first one of these comes from the fast movement of the brushes over the chosen support, which makes the paper absorb the paint in an unequal manner forming dense fields of black ink in some areas and in others simple stains or thin lines.This fast gesture, imprinted in the created forms, eventually provokes regret and a desire to go back to the past. Nevertheless, erasing the marks and dashes inscribed in the support is not possible, affirmation of a time that flows in only one direction. Corrections can only be made by over layering more stains and lines or by alternative constructions over the same worked surface. In this way in an intrinsic manner the technique used, an idea of movement that subverts the apparent immobility of drawn objects even if their identity is always respected is imposed.

The second mechanism that distances the drawings from a still life tradition is the inexistence of a context that situates the reproduced painted objects as part of an ordinary day to day. Isolated from all the references that their neighbors (a tea pot, a pencil sharpener or a flask) are subjected to from the world where they are copied, these images have no way to become still lives, becoming mere concepts of such objects. They are the running paint and the droplets over the paper, also a result of the fast speed at which the artists hand works, that gives them back the weight that the empty white from the support subtracts. Finally there is the enlargement of the forms in relationship to their usual scale, which corrodes the notion of proximity that the drawn objects could evoke to those who observe them closely.

The joining of sheets of paper that allows such expansion of forms is what also makes them possess an evident center where everything that is out and distant converges virtually. Located in between continuity and distance of inhabited space, the images created by Betiina Vaz Guimaraes reclaim in this manner a place in the tradition of representing the world that can only shelter them when it is enlarged. Lastly, they evoke, in the realm of symbolic and sensitive, the ambiguous mode with which appreciation, towards anything or anybody, expresses itself in common life, where even between clear blacks and whites exists greens, grays and blues.

Moacir dos Anjos
 

 


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