fragmentos de um discurso

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fragmentos de um discurso pictórico

Mario Gioia

A obra de Bettina Vaz Guimarães se constroi a partir de relações. Tais elos cada vez mais se assentam em um nível plástico sofisticado e expõem as ambiciosas proposições da artista paulistana. As pinturas, em especial, num estágio maduro de desenvolvimento, provocam o fascínio do olhar. Distintas camadas cromáticas dispostas na superfície da tela se fracionam em retângulos delgados tais quais fitas, por vezes mais agrupados, por vezes mais soltos. As composições vibrantes revelam aos poucos figurações abertas, fundamentadas em objetos cotidianos do nosso entorno, mas cujos contornos fluidos terminam por criar ligações de cor, luz, forma, textura e matéria, sem desprezar os acidentes do processo visual. “Não se encontra expressão naquilo que supostamente são as relações de suas cores. Se eles não conseguem criar relações, podem pegar todas as cores e será em vão. A relação é o parentesco entre as coisas, é a linguagem comum [...]”1, salienta Matisse.
No caso dos quadros da exposição Fragmentos Instáveis (2012), apresentada na galeria Penteado, em Campinas, caixas de costura, de materiais de pintura e de outros usos retratadas em traços inquietos pela pintora mesclam o lado doméstico, intimista, de ateliê, ao âmbito mais público, chamativo, que norteia a disposição de, por exemplo, uma prateleira de loja de armarinhos.

O convívio, então, entre o recolhido e o permeável ganha força por aquilo que Paulo Herkenhoff definiu como “acontecimentos pictóricos”, a respeito da obra de Lucia Laguna, outro grande nome da pintura contemporânea no Brasil. O crítico de arte e curador destaca nos trabalhos da artista fluminense “[...] zonas de pintura processadas mediante a inscrição de signos pictóricos; modos de trabalhar a matéria e a forma, acidentes e vestígios do acaso, pequenas aflições da superfície, pentimenti, vedação e abertura de áreas, cortes arqueológicos das camadas pictóricas e outras operações visuais”2. São questões que também surgem no fazer artístico de Vaz Guimarães e outros pintores. A frisar que tanto Laguna como a paulistana lançam mão das máscaras, estimulando Herkenhoff a citar “vedações” e “cortes arqueológicos” sobre o resultado de tais ações.

Dois movimentos podem ser percebidos na atual fase de Vaz Guimarães. Se a plena habilidade da artista faz com que o jogo de relações entre os elementos pictóricos estabeleçam uma certa leveza nas telas, deixando de lado a justaposição algo caótica e excessiva de pequenos acontecimentos e coisas na composição final dos trabalhos, a pintora, concomitantemente, não teme as incursões do plano para o espaço. Essa vontade tridimensional é evidente nas últimas intervenções e nos desenhos de grande escala que produz. Assim, como uma mola propulsora incessante para sua poética, coabitam a síntese de temas, formas e cores _ resultando, na série Caixas, em pinturas nas quais predominam os tons rebaixados, que se encaminham para o cinza, o verde e o azul; este azul por vezes se sobressai, assim como o ocre e o laranja, mas tal destaque apenas sublinha o envoltório nada berrante _ e os empreendimentos desafiadores ao modo de sites specific.

Os desenhos se concentram no preto, no branco e no cinza e têm dimensões respeitáveis _ chegam a medir 2.10 m x 3 m, por exemplo. “Há, finalmente, o agigantamento das figuras em relação à sua escala usual, o qual corroi a noção de proximidade que as coisas desenhadas poderiam evocar em quem as observa de perto”, diz o crítico Moacir dos Anjos, curador da 29ª Bienal de São Paulo, a respeito dos desenhos exibidos na Fundação Joaquim Nabuco, em Recife, no ano de 2007.

A fisicalidade deles dialoga com o embate vivido por Vaz Guimarães desde sua intervenção no Aluga-Se (2010), projeto coletivo no qual uma típica edícula de residência de tamanho confortável no Alto de Pinheiros, em São Paulo, serve para a artista criar e instalar módulos ( eram azulejos quadrados em papel) retangulares de cor parede acima, que, aos poucos, não resistiam à umidade paulistana e caíam no piso. Esses resíduos pictóricos desconstruíam ainda mais a figura em traços grossos realizada por ela no nascer da obra. O esforço também é claro em projetos feitos na Dinamarca ( "The Dirty and The Bad from Sao Paulo to Svendborg " Museu SAK- Svendborg Dinamarca ). em Campo Grande ( grupo Aluga-se - Marco alugado - Museu de Arte Contemporanea de Mato Grosso do Sul) , colunas formadas por “porções” cromáticas modulares que tomam partido das especificidades das salas expositivas onde foram colocadas, em especial das cores e da luminosidade que preenchem os sucessivos momentos desses lugares.

A pesquisa de cores e luzes “desfeitas” teve ponto alto na coletiva Presenças (2011), ocorrida na galeria Zipper, em São Paulo. “O trabalho que tensiona com mais força a linha entre ausências e presenças é a pintura de Bettina Vaz Guimarães, que funciona como o rastro de um acontecimento. Pintada no mesmo local em que está agora exposta, a tela de Bettina registra um histórico da incisão da luz no local. Registra também os móveis que ocupavam a sala que, antes de ser a sala Zip´Up, era um dos escritórios da galeria. Essas mesas e cadeiras são hoje uma lembrança, documentada na tela de Bettina”3, escreve a crítica de arte Paula Alzugaray sobre a peça.

Alzugaray enfatiza o aspecto espaço-temporal da intervenção de Vaz Guimarães, um dado essencial para a compreensão de sua obra. Hoje tal característica é crucial para a abordagem de produções importantes de pintura mundo afora. Por exemplo, não é possível dissociar a utilização de fotografias amadoras e de arquivo na robusta trajetória do alemão Gerhard Richter, não se ater à lentidão das paisagens do irlandês Sean Scully e desconhecer os instantâneos de memória afetiva na série “chilena” da paulista Marina Rheingantz. “Pois a arte _ e afinal não vejo outra definição que englobe todas as demais _ é uma atividade que consiste em produzir relações com o mundo, em materializar de uma ou outra forma suas relações com o tempo e o espaço”4, define o teórico francês Nicolas Bourriaud em texto sobre a “estética relacional” de nomes como Liam Gillick, Rirkrit Tiravanija e Pierre Huyghe, entre vários outros.

O comentário pode se estender _ por que não? _ às inconformadas produções pictóricas de Matisse, Laguna, Scully, Rheingantz. E a obra marcada por fragmentos, incompletudes, sobreposições (ora ruidosas, ora harmônicas) e dissoluções de Bettina Vaz Guimarães têm muito a dizer sobre nossos dias.

 


textos.essayssilvia ribeiro