pinturas da afetividade

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Pinturas da Afetividade

Ao ser convidado para exercer o papel de “organizador” da mostra final de 2002, resultado dos cursos oferecidos pelo MuBE, vistos nos últimos anos, me deparei com uma difícil, mas extremamente estimulante, missão. A de avaliar, diante dos próprios alunos, os seus trabalhos, e depois escolher os que decidimos exibir, montando uma exposição onde todos pudessem estar presentes indistintamente, com o “melhor” de sua produção. Foi neste momento que tive a oportunidade de travar contato com a obra da artista Bettina Vaz Guimarães.

Percebia-se naquele grupo heterogêneo alguns que já demonstravam procurar uma forma de expressão bastante própria, em meio à pluralidade de experimentações possíveis que esses cursos oferecem; outros revelavam apenas um potencial a ser desenvolvido e, por fim, alguns que já despontavam em um início de carreira artística, tamanha a qualidade de seus trabalhos apresentados. Bettina era um desses “alunos” que se destacavam pelo que me apresentava e pelo determinismo em produzir sem a ansiedade de agradar, segura do que mostrava.
Pintora sensível e insistente, trabalho quase compulsivo e diário. A primeira impressão que tive é que tratava-se de uma pintura como fonte de prazer de pintar, expressão de sentimentos e desejos íntimos da artista e de nosso tempo. Um universo que tinha no campo minado de suas telas um depositário para o seu arquivo afetivo de imagens e signos do cotidiano.
Tem algo de primitivo em suas pinturas. Ou então, poderia enquadrá-la como uma antropóloga dos signos da contemporaneidade nos ajuntamentos aparentemente aleatórios que faz nas superfícies de suas telas. Como se fossem gabinetes de curiosidades. Os pequenos museus particulares com acervo de arte e arqueologia vistos no fim do século XVIII e início do XIX que contavam a história por meio do acúmulo de objetos.

A artista fala de sua memória afetiva pelo coração e tem como meio de expressão imagens de objetos frugais que coleta no cotidiano e compõem suas pinturas como desenhos de observação descompromissados com o preciosismo do traço, e que podem ser desde uma simples e “inútil” garrafa de plástico de água que, de algum modo, Bettina, nessa ação, a disseca na sua estrutura plástica e de significados, até uma cadeira de balanço que resta estática e solitária no meio do campo pictórico de suas telas, exprimindo temporalmente os conflitos do nosso tempo. Uma ação não muito diferente de um botânico quando observa uma planta ou inseto.
Sem hermetismo ou intelectualismo que conduzam o seu trabalho plástico, a artista, dessa forma, se manifesta de maneira simples por meio de emoções puras do dia a dia, o universo subjetivo próprio da arte que por sua vez se comunica de maneira objetiva com o público. O resultado plástico desse “exercício” de observação poderia ser entendido como paisagens ou naturezas mortas da afetividade.

O campo de fundo em cores pastéis quentes de suas imagens é nebuloso, sem muita variação tonal e criam uma “paisagem” desolada e melancólica com suas manchas ralas que, em algumas áreas da tela deixam transparecer traços que foram apagados pelas várias camadas de tintas anteriores.
Atualmente, esses tons apastelados cedem lugar para um fundo negro, quase um abismo para seus desenhos que perambulam nas telas. Desenhos que guardam ainda uma rusticidade dos traços “grosseiros” e vigorosos vistos nos primeiros trabalhos, uma decisão puramente pictórica da artista.

As naturezas mortas ou paisagens da memória, são formadas pelas garrafas plásticas de água, objetos de cozinha, brinquedos, bibelôs, imagens de santas, vasos de vidros (copos, garrafas, jarros) que possuem algum preciosismo de fatura dando um requinte à tela ou de memória (podem pertencer a mãe, a uma das filhas ou trazidas da casa de algum amigo). A esse universo de objetos se juntam ainda situações serenas do cotidiano, como uma mulher que espera sentada em um banco no meio do nada ou do que seria um jardim; um cachorro que “observa” o vazio à sua frente. Ou seja, as coisas simples que se pode observar na vida daqueles que se permitem à contemplação do mundo.

E falar de simplicidade em arte, não é algo muito fácil e aceito. Por isso, termino este texto com uma citação da crítica de arte e historiadora Sheila Leirner, por quem tenho muita admiração. Ela tem a medida certa de um crítico. O brilhantismo para um historiador. E é com um comentário seu que me serve para reflexão sobre a minha função nesse momento em que penso na obra de Bettina Vaz Guimarães.
“Um crítico não é necessariamente um historiador, pesquisador ou museológo. Para a ciência a subjetividade pode não ser necessária, mas não há crítica possível sem emoção. Por mais objetivo que o crítico deva ser, é o sentimento que o leva a descobrir as palavras precisas e a estrutura do seu raciocínio. Da mesma maneira como é a sensação que o conduz a decifrar os fenômenos da criação e a se interpor como um xamã entre eles e o público. Seja por meio da escrita ou de uma exposição”.
De certo modo, é assim que penso e escrevo sobre arte, e acredito também, que não há arte possível sem emoção. E é isso que Bettina nos apresenta em sua primeira individual na cidade de São Paulo, em um momento especial em que percebemos ressurgir um novo interesse pela pintura.
Ricardo Resende
São Paulo, 29 de março de 2004.
 

 

Affectionate Paintings

Being invited to exert the role of “organizer” of the 2002 end of year exhibition at MUBE, which presented the work done in the courses, I first came into contact with the work of Bettina Vaz Guimaraes. One could notice that in that diverse group, some already demonstrated a search for a unique form of expression, in the midst of the plurality of experimentations that these courses offer, Bettina was one of these students who ‘stood out’ for what she presented me.
The first impression I had, was that the painting was a source of pleasure to the creator, expressing feelings and intimate desires belonging to her and to our time. A universe which had on the mined camp of her canvas a deposit for her affectionate archive of images and symbols of the day to day.
There is something primitive in her paintings, like the form of recording the world through symbols of the contemporary bonding together in an apparently random form on her canvas.

The artist talks of her affectionate memory through her heart and has, as a means of expression, frugal objects which she collects on the day to day which make a part of her paintings. Like drawings of uncommitted observations, with precious outlines, ranging from a simple and “useless” plastic water bottle which in some way, in this action Bettina has dissected in her meaningful art structure. Even an arm chair that rests statically and solitary in the middle of the pictorial field of her canvas, expresses temporarily the conflicts of our time.
Without the guidance of intellectualism and ….., her art work manifests itself in a simple manner; through pure emotions of the day to day and through the subjective universe, proper of art, which in it’s own turn communicates objectively with the public. The artistic result of this “observation” exercise could be understood as landscapes or nature, affectionately dead. The pastel colored background, hot in images is nebulous, without much tonal variation creating a desolate melancholic “landscape”. The thin stains in some areas of the canvas reveal the lines that have been erased by the many layers of paint. Presently, the pastel tones give way to a dark background which is almost an abyss for the drawings, that wonder through the canvas maintaining a rustiness of lines, “crude” and vigorous, common to her first works of art, a purely pictorial decision of the artist.

The dead nature or landscape of the memory are formed by plastic water bottles, kitchen objects, toys, images of saints, glass vases (cups, bottles, jars) which possess a precious air, that refines the canvas, or an air of memory (which may belong to her mother, one of her daughters or friends house.) To this universe of objects join serene daily situations
like a woman who waits seated on a bench in the middle of nothing or what would be a garden, a dog which “observes” the emptiness in front of him. That is to say, the simple things which one can observe, in the lives of those who permit themselves to contemplate the world. With emotion.
In a way it is like this that I believe, think and write about art, that there is no possible art without emotion. It is this that Bettina presents us in her first individual exhibition in the city of São Paulo, in a special moment which realizes a new revival in the interest of painting.

Ricardo Resende
São Paulo, 29 de março de 2004.


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